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O regresso ... Poema de Miguel Torga

“Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar.
Ouvi, agora, Senhores
Uma história de pasmar…”
A Mãe correu à varanda,
Bem longe de imaginar
Que o alarme desejado
Vinha dum cego a cantar:
“Passava mais de ano e dia
Que iam na volta do mar,
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar…”
A Mãe abriu num soluço
O coração a sangrar,
Porque a sola era tão rija
Que a não podiam tragar…
“Deitam sortes à ventura
Qual se havia de matar”.
(A Mãe tinha pão na arca
E não lho podia dar!)
“Logo foi cair a sorte…”
(Que sorte tão singular!).
O gageiro olhava, olhava,
Mas só via céu e mar…
“Alvíssaras, Capitão…”
E o vento a enrodilhar
A voz do homem da gávea
Na do ceguinho a cantar!
“A minha alma é só de Deus,
O corpo dou-o eu ao mar…”
A Mãe, que nada podia,
Já só podia rezar…
“Deu um estoiro o demónio,
Acalmaram vento e mar.”
E quando o cego acabou
Estavam em terra a varar…

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