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O corvo e a raposa ... Poema de Bocage

É fama que estava um corvo
Sobre uma árvore poisado
E que no sôfrego bico
Tinha um queijo atravessado.

Pelo faro àquele sítio
Veio a raposa matreira
A qual, pouco mais ou menos
Lhe falou desta maneira:

– Bons dias, meu lindo corvo;
És glória desta espessura;
És outra fénix, se acaso,
Tens a voz como a figura.

A tais palavras o corvo
Com louca, estranha afoiteza
Mor mostrar que é bom solfista
Abre o bico e solta a presa.

Lança-lhe a mestra o gadanho
E diz: – Meu amigo, aprende
Como vive o lisonjeiro
à custa de quem o atende.

Esta lição vale um queijo,
Tem destas para teu uso.
Rosna então consigo o corvo
Envergonhado e confuso:

– Velhaca, deixou-me em branco
Fui tolo em fiar-me dela
Mas este logro me livra
De cair noutra esparrela.

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